“O prato virou poder: a revolução alimentar que redesenha a economia global – Por Floriano”
Depois de participar de diversas conferências sobre o futuro, como a SXSW, em Austin, e de outros encontros internacionais, ficou evidente que alimentação e saúde já ocupam o centro dos debates mais sérios sobre o amanhã. Em conversas com “futuristas”, filósofos, sociólogos e cientistas que trabalham a partir de evidências e dados empíricos, emergiu com força a percepção de que estamos diante de uma nova disputa estrutural, uma espécie de guerra silenciosa entre a indústria alimentícia tradicional e a indústria farmacêutica, impulsionada pelo avanço das chamadas canetas de emagrecimento. Não se trata de bem-estar individual ou moda passageira, mas de uma transformação profunda que reorganiza cadeias produtivas, modelos de negócio e relações de poder na economia global.
Algumas das vozes mais consistentes do pensamento prospectivo já apontam essa convergência. Amy Webb, fundadora do Future Today Institute, tem defendido que as grandes disrupções do nosso tempo não virão apenas da inteligência artificial ou da automação, mas da intersecção entre biotecnologia, saúde e comportamento humano. Quando a biologia altera hábitos em escala, mercados inteiros precisam se redesenhar. A alimentação está exatamente nesse ponto de inflexão.
Essa reflexão ganha densidade estratégica quando se parte de um dado incontornável, o Brasil é um dos maiores produtores de alimentos do mundo, possivelmente o maior quando se considera escala, diversidade e capacidade de expansão. Em um cenário de transição alimentar global, isso deixa de ser apenas vantagem comparativa e passa a ser questão de soberania econômica. O que o mundo come define fluxos de comércio, investimentos, empregos, infraestrutura e influência internacional.
Durante décadas, a economia alimentar global foi organizada em torno do excesso. Ultraprocessados, bebidas açucaradas e produtos de consumo rápido tornaram-se pilares de cadeias multinacionais altamente lucrativas. Esse modelo ajudou a consolidar conglomerados poderosos, padronizar dietas em escala planetária e criar dependência de consumo recorrente. Ao mesmo tempo, produziu efeitos colaterais amplamente conhecidos, crescimento da obesidade, doenças metabólicas, queda de produtividade e pressão crescente sobre sistemas públicos de saúde.
O que está acontecendo agora não é um ajuste marginal, é uma mudança estrutural. O avanço dos medicamentos agonistas de GLP-1, popularmente conhecidos como canetas de emagrecimento, não criou essa transformação, mas acelerou um processo que já estava em curso. Ao reduzir o apetite e o consumo impulsivo, esses medicamentos atingem o coração de um modelo econômico baseado em volume, repetição e estímulo constante.
Tive a oportunidade de assistir, em ObesityWeek, nos Estados Unidos, em novembro de 2024, a uma palestra do endocrinologista Arya Sharma, uma das maiores autoridades mundiais em obesidade. Sua mensagem foi direta. Esses medicamentos não substituem mudança de hábitos, mas alteram profundamente a relação das pessoas com a comida. Quando a fome deixa de comandar decisões, o consumo se torna mais racional, planejado e consciente. Isso muda cardápios, carrinhos de supermercado e, inevitavelmente, balanços corporativos.
Esse movimento já aparece com nitidez no radar de investidores e executivos globais. Grandes multinacionais de alimentos e bebidas passaram a rever estratégias, reformular portfólios e sinalizar riscos ao crescimento tradicional. Quando milhões de consumidores comem menos, com mais critério, o impacto não é cultural ou simbólico, é econômico.
Do ponto de vista geopolítico, essa transição redefine prioridades. Países exportadores precisam decidir se continuarão presos a um modelo baseado em commodities de baixo valor agregado ou se avançarão para alimentos de maior qualidade nutricional, proteína, rastreabilidade e sustentabilidade. Quem dominar essa nova economia alimentar terá vantagem competitiva duradoura.
Para o Brasil, o desafio é claro. Não basta ser celeiro do mundo. É preciso ser protagonista da nova geopolítica da alimentação, alinhando produção, inovação, saúde pública e estratégia internacional. Exportar alimentos é também exportar padrões de consumo, reputação e visão de futuro.
A alimentação deixou de ser um tema periférico. Ela atravessa comércio internacional, saúde pública, produtividade, gasto estatal e poder econômico. Ignorar essa transição é aceitar a irrelevância estratégica no médio prazo. Enfrentá-la de frente é transformar uma mudança global em projeto nacional.
Talvez, o futuro não esteja apenas nos algoritmos ou nas grandes promessas tecnológicas. Talvez ele esteja acontecendo agora, de forma silenciosa e decisiva, no prato que muda, no consumo que recua e na economia global que começa, lentamente, a se reorganizar em torno disso.






