“Quando o diálogo acende a luz – Por Floriano Pesaro”
Em tempos marcados pela intensificação dos discursos de ódio, pela polarização e pela fragilização do diálogo público, iniciativas que apostam na escuta, na institucionalidade e na construção de pontes tornam-se ainda mais relevantes. Foi nesse contexto que participei de um encontro inédito no Palácio do Planalto entre representantes do governo federal e diversos setores da comunidade judaica brasileira, dedicado ao enfrentamento do antissemitismo no país.
A reunião foi realizada a convite da ministra Gleisi Hoffmann e da querida Clara Ant, que liderou com sensibilidade, método e firmeza a articulação desse espaço de diálogo. Contou também com a presença do presidente da República interino, Geraldo Alckmin, além das ministras Esther Dweck e Macaé Evaristo e de Maria Laura da Rocha, secretária-geral do Itamaraty, o que conferiu densidade institucional e inequívoco sentido de Estado à iniciativa.
O diálogo foi enriquecido de forma decisiva pela participação de Claudio Lottenberg, presidente da Confederação Israelita do Brasil, e de Fernando Lottenberg, referência internacional na defesa da liberdade religiosa e no combate ao antissemitismo na OEA. Suas presenças foram imprescindíveis para a construção de um diálogo de alto nível, capaz de articular a experiência da comunidade judaica brasileira com parâmetros internacionais de direitos humanos e convivência democrática.
Em um cenário global e nacional atravessado por tensões, radicalizações e falsas certezas, uma luz se acende quando o governo federal se coloca como construtor de pontes e em defesa dos direitos humanos. Mais do que um evento formal, o encontro simbolizou a escolha política pelo diálogo maduro, pela escuta qualificada e pela responsabilidade institucional diante de um tema sensível e estrutural.
O antissemitismo nunca é um problema restrito à comunidade judaica. Ele funciona como um sintoma precoce da degradação democrática. Onde se instala, avançam o autoritarismo, o negacionismo histórico e a lógica da desumanização. Combatê-lo é defender o Estado de Direito, a convivência plural e os fundamentos da democracia constitucional.
Ao colocar no centro do debate a educação, a memória, o diálogo intercomunitário e a atuação preventiva do Estado, o encontro apontou caminhos concretos. Democracias não se fortalecem pelo silêncio nem pela radicalização permanente, mas pela capacidade de ouvir, reconhecer diferenças e agir com firmeza e serenidade.
Em um mundo atravessado por conflitos e discursos extremos, iniciativas como essa mostram que ainda é possível iluminar caminhos. Caminhos que não eliminam divergências, mas as organizam sob o signo do respeito, da institucionalidade e do compromisso com valores civilizatórios. É assim, com diálogo, coragem pública e responsabilidade democrática, que a democracia se sustenta e se renova.






